DESVENDANDO A PSIQUIATRIA

Muitas pessoas ainda deixam de ir ao psiquiatra por medo de serem rotuladas de “loucas”. Um dos problemas desencadeados por esse preconceito é que o indivíduo em sofrimento psíquico acaba prolongando a sua dor e tornando-a mais difícil de ser tratada na medida em que protela a procura pelo atendimento especializado. Isso porque atuar na doença mental no seu quadro inicial melhora sobremaneira o prognóstico, pois evita a cronicidade dos sintomas. Além disso, a resposta terapêutica, independente do plano terapêutico estabelecido pelo psiquiatra, é mais rápida, eficaz e, sem dúvida, mais duradoura.

Nos dias de hoje em que as doenças psíquicas ou mentais estão em ascensão e, acometendo cada vez mais pessoas, é imprescindível que haja a desestigmatização da psiquiatria. Precisamos desassociar, de uma vez por todas, a psiquiatria da loucura, e encarar a doença psíquica como outra qualquer.

Existem alguns fatores que, ao meu ver, contribuíram para que esse estigma fosse concretizado e difundido. Um deles é o fator histórico. A psiquiatria, relativamente nova como especialidade médica, teve sua origem na Idade Média com os manicômios que tratavam basicamente pessoas com sintomas psicóticos e de uma forma totalmente desumanizada. A psicose era o quadro psiquiátrico que justificava o tratamento por essa especialidade. Pessoas com outros tipos de sintomas psíquicos, mais amenos e não tão assustadores aos olhos da sociedade, procuravam outros tipos de ajuda em áreas variadas, o que acabava descentralizando o tratamento e a sua possibilidade de eficácia. A psiquiatria era, portanto, extremamente restrita, limitada e errônea na sua abordagem.

Apenas no século XVIII é que essa especialidade médica começou a evoluir de forma a considerar a abrangente sintomatologia dos quadros psíquicos, além de outras mudanças que ocorreram na época, sem esquecer da reforma psiquiátrica que – no Brasil – ocorreu no final da década de 70 e foi um marco para a saúde mental de forma geral. Entretanto, apesar da constante evolução da psiquiatria, ainda existe o preconceito em relação a ela, e isso me faz pensar que devam existir outros fatores contribuintes para o estigma, além dos históricos.

A desinformação também tem um papel muito importante nessa questão, o que parece até um paradoxo, tendo em vista que estamos na era digital ou tecnológica. Percebo no consultório, por exemplo, que as pessoas em geral não sabem qual o real papel do médico psiquiatra e eu diria até que muitos profissionais da área da saúde mental, inclusive médicos de outras especialidades, também desconhecem algumas informações importantes e pertinentes, o que acaba confundindo ainda mais o indivíduo que está necessitando de ajuda especializada.

Primeiramente, o psiquiatra é médico, estudou seis anos de Medicina e, no meu caso, mais três anos em período integral, sem contar com as subespecializações para tornar-se especialista, ou seja, psiquiatra. Esse profissional tem o CRM, que é o registro de médico, e o RQE, que é o registro de especialista. Na verdade, o médico pode atuar em qualquer área da Medicina, mas não pode se intitular especialista se não tiver realizado a especialização e prova de título ou residência médica.

Em relação à abrangência da sua atuação, o psiquiatra cuida de pacientes com transtornos mentais  e conflitos internos de uma forma bastante complexa. Ele atua não apenas no quadro agudo da doença, como também pode atuar na sua prevenção e na reabilitação do paciente durante e após o tratamento. Além disso, ter formação médica torna o psiquiatra apto para avaliar de forma minuciosa e global os sintomas psíquicos que, muitas vezes, mimetizam ou são causados por doenças orgânicas. O tratamento por esse profissional é extremamente abrangente, podendo ser farmacológico e / ou psicoterápico.

Os transtornos psíquicos podem ter diversas graduações ou intensidades, ser tratados no consultório, em domicílio ou em regime de internação psiquiátrica, além de serem inúmeros. O psiquiatra pode tratar desde esquizofrenia, demência e transtorno bipolar até situações mais contemporâneas como depressão, ansiedade, estresse, dependência química e disfunções alimentares como compulsão, anorexia e bulimia. Transtornos de personalidade, como o borderline e o dependente, entre outros, também podem ser tratados pelo psiquiatra. Aliás, o médico psiquiatra pode atuar como terapeuta se possuir formação para tal nas diferentes modalidades de terapia e não restringir-se apenas a prescrição de psicotrópicos.

Caso o psiquiatra não realize terapia e essa for uma indicação de tratamento, ele certamente encaminhará para um psicólogo da sua confiança. Essa parceria é extremamente benéfica para o paciente. Outra questão pertinente em relação à psiquiatria é que existem diversas abordagens terapêuticas. Durante a minha formação como médica, e após como psiquiatra, assumi a abordagem psicodinâmica como base profissional. O psiquiatra psicodinâmico aborda seus pacientes, tentando basicamente determinar o que é singular em cada um deles, dependendo de sua história de vida.

Para mim o indivíduo deve ser considerado como um todo, levando em consideração a  sua personalidade, suas vivências passadas e recentes, seus medos, seus anseios, seus desejos, seus impulsos, sua auto imagem, sua percepção dos outros e do mundo, seus relacionamentos, sua espiritualidade e o seu funcionamento padrão, além é claro de considerar seus fatores genéticos, suas comorbidades clínicas e sua situação de saúde física naquele momento.

Muitas vezes, são necessários exames laboratoriais e/ou de imagem para que possamos fechar o diagnóstico psíquico e traçar o plano de tratamento. Vale ressaltar que a abordagem psicodinâmica pode ser sempre realizada, independente se o psiquiatra atuará ou não como terapeuta e independente do tempo da consulta. Outro fator que talvez distancie as pessoas dos consultórios dos psiquiatras, além da questão histórica e da falta de informações pertinentes acerca da profissão, é a própria postura do psiquiatra. Escuto muitas queixas dos pacientes em relação a isso, ou por experiência própria, ou porque ouviram falar. Existe um certo estigma  não apenas da psiquiatria, como também da figura do psiquiatra. Muitas pessoas dizem que os psiquiatras são frios, distantes e pouco sensíveis, além disso os pacientes queixam- se de que quando começam a falar de uma forma mais detalhada ou expressar seus relatos com muito sentimento são logo encaminhados para o psicólogo. Essa impressão infelizmente é muito comum.

A boa relação ‘médico-paciente’ é imprescindível para que haja sucesso terapêutico. O paciente precisa sentir-se de certa forma à vontade diante do profissional e para que isso aconteça é importante que o profissional tenha sensibilidade e empatia; entretanto, acredito que isso dependerá do perfil e da formação de cada um.

O objetivo dessa conversa é desmistificar o psiquiatra e a psiquiatria. Não há vergonha alguma, e nem é preciso receio, para consultar com esse profissional. Portanto, diante de quaisquer sintomas psíquicos ou sintomas físicos inexplicáveis procure o psiquiatra para que ele possa avaliar o quadro e planejar o tratamento o quanto antes. É importante ressaltar que o tratamento não necessariamente será medicamentoso, isso dependerá de cada caso.

Não esqueça que o tratamento é individualizado e, muitas vezes, a psicoterapia é a primeira e única escolha de tratamento e não apenas coadjuvante. Além disso, o tratamento geralmente tem início, meio e fim e não é vitalício, como a grande maioria das pessoas pensa. Em relação aos temidos efeitos colaterais dos psicotrópicos, existem hoje uma infinidade de medicações disponíveis no mercado e, muitas delas, com pouquíssimos ou nenhum efeito colateral. Aliás, talvez na maioria das vezes, existe a possibilidade da monoterapia se aliada a um tratamento multidisciplinar e multifocal. A mudança global no estilo de vida, incluindo a prática de atividade física regular, do sono reparador, das terapias alternativas voltadas para o autoconhecimento e autocontrole, da espiritualidade e da alimentação saudável são sempre necessários para a melhora global.

PERCA O MEDO E O PRECONCEITO, NÃO PERCA TEMPO. PROCURE UM PSIQUIATRA.

Vanessa Adegas Menin, médica psiquiatra em Balneário Camboriú e Itajaí
CRM 22011 RQE 12908

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