Com a palavra, o especialista

Médico infectologista Ricardo Dimas Zimmermann fala sobre Covid-19, o vírus que abalou o mundo.

Desde o seu primeiro registro oficial em dezembro de 2019, na província de Wuhan na China, a Covid-19 atingiu mais de seis milhões de pessoas ao redor do mundo. Destes, mais de 375 mil casos evoluíram para morte.

Para saber um pouco mais sobre este vírus que mexeu drasticamente com o dia a dia, a economia e as perspectivas da população mundial, fomos conversar com um renomado especialista da região, o médico infectologista Ricardo Dimas Zimmermann.

Doutor, qual a verdadeira dimensão da gravidade deste vírus e quem são os principais afetados? 

Como se trata de um novo vírus, ninguém apresenta imunidade. Sendo assim, 100% da população é vulnerável, explicando a alta taxa de propagação (estima-se que cada doente dissemina o vírus para cerca de 2 a 3 pessoas). As pessoas que apresentam maior risco de complicações são os idosos e aqueles que apresentam doenças crônicas (comorbidades), como por exemplo: hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo, doenças crônicas pulmonares, cardíacas, câncer, entre outras. As crianças raramente são acometidas.

Quais os principais sintomas?

Podem variar desde formas leves sem sintomas ou apresentar rinorréia, congestão nasal, dor de garganta, tosse seca, dor muscular até casos mais graves apresentando febre, falta de ar, insuficiência respiratória.

Em caso de suspeita, o que fazer?

A grande maioria dos municípios apresenta telefone para orientação da população nos casos mais leves. Se os sintomas piorarem, como por exemplo febre persistente por mais de 24h a pessoa deve procurar a unidade básica de saúde mais próxima de sua casa. Evitar procurar pronto socorro, exceto se tiver falta de ar ou sensação de fôlego curto.

Como proceder com o isolamento dentro de casa? 

Para as pessoas com sintomas respiratórios recomenda-se dentro de casa que faça o distanciamento com as demais pessoas de pelo menos 1,5 metros, usar máscara, higiene das mãos com álcool gel várias vezes. Importante também sempre realizar a limpeza dos locais onde foi tocado pelo doente com álcool ou outro saneante, não compartilhar roupas, toalhas e produtos de higiene pessoal.

PREVENÇÃO

Algumas pessoas acham exagero cuidados como sair de casa de máscara e o uso do álcool em gel a todo momento. É exagero ou não? 

O uso de máscara deve ser encorajado sempre ao sair de casa, esta prática reduz o risco de transmissão de uma pessoa doente para as outras e também reduz o risco de uma pessoa sadia de se contaminar. O uso de máscara aliado a prática de higiene das mãos são as medidas mais importantes para evitar a propagação durante o convívio social. Estas práticas são indispensáveis para a redução de circulação viral em ambientes fora de casa.

Podemos dizer que o isolamento é a nossa maior arma contra o vírus?  

A redução de circulação em que as pessoas ficam o máximo de tempo em casa é muito importante desde as fases iniciais da pandemia. Quanto menos pessoas estiverem circulando, menor a transmissibilidade. O distanciamento social, desde permanecer em casa o máximo de tempo possível até se manter a distância de mais de 1,5m entre as pessoas quando se precisa sair de casa são medidas cruciais para redução de propagação viral em ambientes comunitários. Isto serve para todos os lugares que as pessoas vão: bancos, shopping, restaurantes, ruas… Como não sabemos quem são as pessoas infectadas, estas ações devem ser realizadas por todos.

Algumas pessoas estão relaxando nos cuidados, de que forma isso pode impactar na saúde das cidades como um todo? A saúde (pública e particular) em nenhuma parte do Brasil tem como atender a tantas pessoas ao mesmo tempo, não é mesmo?

Cada cidade deve ter um plano de ação baseado na sua curva epidêmica. À medida que se tem o controle do número de novos casos, baixo número de internações hospitalares pelo COVID-19, as atividades econômicas precisam ser restabelecidas. Porém, temos que ter em mente que não voltaremos ao mundo anterior. Todas as atividades deverão estar adaptadas a um mundo que exige distanciamento social, uso de máscaras e higiene frequente das mãos. Lembrar que o restabelecimento das atividades econômicas não são sinônimos de relaxamento dos cuidados. Para se ter um maior controle do número de novos casos é essencial que o retorno às atividades esteja associado com investimento de testagem populacional.

Um pouco sobre os números

Hoje o Brasil se encontra em terceiro lugar em número de casos, porém, a população brasileira é muito maior que a maioria dos países europeus. Dados de número de casos ou mesmo número de óbitos pelo número de habitantes coloca o Brasil para baixo nestas pesquisas. O país tem tamanho continental, mostrando alguns epicentros da pandemia, como São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Amazonas, Distrito Federal. Em geral, os estados com maior número de casos foram aqueles que demoraram mais para adotar as medidas de distanciamento social e redução de circulação. É imprescindível que o poder público controle e fiscalize atividades que possam trazer risco de transmissão para a população.

Se pudesse fazer uma previsão, como diria que serão os próximos meses?

Os estados terão curvas muito distintas. Estas curvas são diretamente proporcionais as medidas de distanciamento social em geral. Estados que não estão seguindo as orientações das entidades de saúde competentes terão um número elevado de mortes, hospitais lotados e provável colapso do sistema de saúde.

No ritmo que a doença se propaga em Santa Catariana, é possível dizer que se continuar assim teremos condições de atendimento a todos que precisarem? Ou não, se mantivermos esse ritmo de contágio o que poderá acontecer?

A curva de novos casos em Santa Catarina está seguindo um modelo achatado até o momento, a qual reflete as medidas precoces de lockdown de alguns municípios, redução de circulação e distanciamento social. Por outro lado, o estado retornou com as atividades econômicas mais precocemente, o que se esperava uma elevação da curva, não concretizada até o momento.

Nas últimas semanas vários municípios começaram a realizar teste rápido na população e o estado de Santa Catarina está realizado mais testes diagnósticos do que no início da pandemia, desta forma, é de se esperar um maior número de novos casos diagnosticados. Então o indicador mais importante é o número de internação hospitalar pelo COVID-19, assim como número de mortos, pois estes indicam melhor se as medidas estão sendo efetivas.

De qualquer forma, o mais importante é o impacto que estes novos casos terão no sistema de saúde. Estamos chegando próximo ao inverno, período de maior circulação do vírus Influenza, outro fator associado com mais internações e atendimentos em unidades de emergência.

Estamos há mais de 4 meses do início da pandemia, o poder executivo teve tempo suficiente para o planejamento de atendimento destes casos, como a criação de leitos de UTI, aquisição de respiradores e insumos em geral. Acredito que se as pessoas respeitarem as medidas de distanciamento social, uso de máscaras e higiene das mãos com álcool gel o sistema de saúde catarinense terá capacidade para o atendimento da população.

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