Microbiota intestinal equilibrada ajuda a perder peso. Saiba como está a saúde da sua

Tecnologia desenvolvida no Brasil permite a profissionais da nutrição identificar quais bactérias estão colonizando o intestino e  indicar dieta mais adequada para cada pessoa 

A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, divulgada pelo instituto no fim do ano passado, mostrou que 96 milhões de brasileiros, o equivalente a 60,3% da população adulta do país, estão com excesso de peso. Os dados preocupam porque a obesidade já é considerada uma epidemia global e está diretamente relacionada ao desenvolvimento de doenças crônicas, diabetes e até câncer. As principais causas, segundo especialistas, são o consumo de alimentos processados ricos em calorias e a falta de atividade física diária. O que muita gente não sabe é que a composição do microbioma intestinal tem um papel na regulação do peso corporal e é possível ajustá-la com uma dieta adequada. 

“Os hábitos alimentares são fator determinante do tipo de bactérias que temos ou teremos no intestino”, explica a bióloga Laís Eiko Yamanaka, que é pesquisadora e responsável técnica na startup de biotecnologia BiomeHub.

O microbioma intestinal é composto por inúmeros microrganismos que podem conviver com o ser humano sem causar qualquer tipo de doença ou malefício ao bem-estar. Pelo contrário, auxiliam desde o nascimento à manutenção de funções fisiológicas. Há tecnologias capazes de ajudar profissionais da nutrição a conhecer quais bactérias estão colonizando o intestino e, assim, indicar a alimentação mais apropriada para cada pessoa. 

“Uma dieta que consiste em alimentos altamente processados tem sido associada a menor diversidade de microrganismos intestinais. Essa dieta não saudável impede que os grupos bacterianos benéficos se desenvolvam no nosso intestino. Logo, uma microbiota intestinal saudável e equilibrada resulta em um desempenho normal das funções fisiológicas, ajudando na perda de peso”, complementa Laís.

Um estudo publicado na principal revista internacional especializada em gastroenterologia, a BMJ Journal Gut, mostrou que indivíduos obesos criaram uma “assinatura de obesidade” dentro de seu microbioma intestinal, que moldou o funcionamento do metabolismo. Esse efeito pode aumentar a dificuldade de perder peso e facilitar a recaída após a perda de alguns quilos, mesmo com uma dieta normal. Essa “assinatura” é definida por mudanças nas populações bacterianas que podem contribuir para mudanças no metabolismo através de fatores genéticos e ambientais. 

Há ao menos dois estudos científicos (publicados pela editora Springer Nature, líder global em disseminação de pesquisas, e pela especialista em microbiologia de alimentos Frontiers in Microbiology) que apontam a existência de duas bactérias intestinais que estão relacionadas à prevenção do ganho de peso e são frequentemente encontradas em pessoas magras (com índice de massa corporal (IMC) menor do que 18,5):  Akkermansia muciniphila e Christensenella minuta. É possível aumentar a abundância dessas bactérias por meio do consumo de cranberries, chá preto, óleo de peixe e sementes de linhaça. A Christensenella está associada à composição genética, o que significa que há mais chances dessa bactéria estar presente no intestino de pessoas de uma mesma família. 

Além disso, observa a bióloga, há diferenças nas composições da microbiota intestinal de pessoas saudáveis e obesas: “Indivíduos com sobrepeso apresentam um desequilíbrio entre bactérias protetoras e agressoras no intestino com a produção de efeitos nocivos ao organismo, a chamada disbiose”. 


Como mudar as bactérias intestinais para perder peso

A especialista em Biotecnologia Aplicada à Saúde da BiomeHub, Aline Fernanda Rodrigues Sereia, explica que fazer mudanças na dieta alimentar é a maneira mais rápida de equilibrar a microbiota intestinal e, consequentemente, de perder peso. 

“A dieta é um fator importante e determinante do tipo de bactérias que você tem (ou terá) no intestino. Quando você passa anos se alimentando de uma certa maneira, seu corpo se adapta, e isso inclui a  sua microbiota intestinal. Fazer mudanças em sua dieta pode ajudar a iniciar sua perda de peso, mas sem entender o que está acontecendo dentro de você, sua perda de peso pode ser apenas momentânea”, ressalta Aline.

Uma dieta baseada em alimentos altamente processados tem sido associada a menor diversidade de microrganismos intestinais. Uma dieta não saudável pode, também, impedir que os grupos bacterianos benéficos se desenvolvam no nosso intestino. “Indivíduos que seguem uma dieta rica em fibras e pobre em gorduras (basicamente vegetariana) têm níveis mais elevados de bactérias probióticas fermentadoras, em comparação a indivíduos que tenham uma dieta moderna, rica em gorduras e pobre em fibras”, exemplifica Aline.

Já a alta disponibilidade de fibras no intestino eleva a produção de substâncias benéficas, como o butirato, que induz a proliferação de bactérias com ação anti-inflamatória. Pessoas com dieta baseada somente em alimentos industrializados e baixo consumo de fibras provavelmente não conseguirão multiplicar e manter as bactérias benéficas ao intestino.

Tecnologia à favor da saúde

Desde o final dos anos 1990, com o advento da biologia molecular, várias técnicas de identificação bacteriana têm surgido, permitindo diagnósticos mais precisos. Dentre essas ferramentas já existem testes, feitos a partir da coleta de fezes, capazes de detectar a composição da microbiota intestinal, identificando bactérias que promovam a saúde, além de patogênicas e associadas a doenças.

 “Essa radiografia precisa e ampla da saúde do intestino é resultado da combinação do sequenciamento genético de DNA aliado a análises de bioinformática. É um método que traz informações que não podem ser acessadas por exames laboratoriais convencionais, permitindo a identificação não somente de um organismo, mas de toda a comunidade bacteriana intestinal. Com o resultado, o profissional de saúde tem condições de elaborar uma dieta mais acertada para aquele indivíduo ”, explica Luiz Felipe Valter de Oliveira, CEO da startup BiomeHub e doutor em Genética e Biologia Molecular.

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